Perdas de alimentos e Sistemas Sustentáveis: análise à luz de abordagens de governança
⚫ Concluído · 2022 – 2025 CNPq

Perdas de alimentos e Sistemas Sustentáveis: análise à luz de abordagens de governança

👤 Coordenação: Giuliana Aparecida Santini Pigatto

Métodos

Um conjunto de métodos se mostrou adequado: inicialmente, de caráter descritivo e qualitativo, sendo realizado o levantamento teórico das abordagens de Economia dos Custos de Transação e Governança Multistakeholders, Sistemas Alimentares Sustentáveis, e Perdas e Desperdícios de Alimentos, e ainda, uma revisão sistemática para identificação de possíveis práticas existentes, elencando-se essas abordagens conjuntamente. As bases de dados usadas foram o Scopus e Web of Science.

Foi utilizado o método multicasos, desenvolvido a partir de empresas focais de processamentos em bovino de corte, farináceo/ massas e lácteos, na perspectiva Brasil. A noção de empresa focal é a de desempenhar papel estratégico em relação a outros atores dos sistemas produtivos - como trabalhado por Pohlmann et al. (2020) e Carvalho e Barbieri (2013) -, retratada na presente pesquisa na relação à montante com fornecedores, como produtores.

Justificam-se os três sistemas alimentares, partindo-se das empresas focais de processamento de bovino de corte, farináceo/ massas e lácteos, por serem distintos em termos de trajetórias e absorções tecnológicas, e de características díspares de funcionamento - envolvendo desde animais vivos e cadeias de frios (no caso de bovino de corte e lácteos), a grãos secos (farináceo) -, que possivelmente são impactados de maneiras distintas por suas ações e inter-relacionamentos visando mitigação das perdas de alimentos.

A equipe da pesquisa entrou em contato com a totalidade de 28 organizações, no ano de 2024, sendo 11 de leite; nove (9) de farináceo; e oito (8) de processamento bovino. Os nomes das organizações foram obtidos a partir de estudos setoriais e websites; na sequência se buscou dados de e-mails, endereços e telefones, pela plataforma Google. Os contatos foram realizados a partir de março de 2024,  primeiramente em contato telefônico, depois em e-mails com carta de apresentação da pesquisa etc., e três estudos de casos foram, então, desenvolvidos, no 2º semestre de 2024.

Assim, os três (3) estudos de caso realizados foram com companhias brasileiras, que atuam no mercado nacional e internacional, esta, por meio de exportação. Os entrevistados foram com gestores de suprimentos ou produção, e área de pesquisa e desenvolvimento, e marketing.

A técnica de coleta de dados estabelecida para realizar os estudos de caso foi o questionário/ formulário semiestruturado, nos estudos em nível Brasil, havendo aplicação piloto à empresa de lácteos. Buscou-se também avaliar de modo descritivo e qualitativo, por meio de análise documental (relatórios de sustentabilidade), bibliográfica e de informações de websites das empresas.

Nos estudos em nível francês foram utilizadas contribuições a partir da Purpan École D´Ingénieurs, Universidade de Toulouse (FR), de pesquisas de cada segmento francês (Muratet; Bouroullec, 2022; Jacquin; Bouroullec, 2023; Cahuc; Bouroullec, 2023). Ressalta-se que esses métodos visam trazer evidências em termos de melhores desempenhos de outros sistemas, firmas, podendo-se aperfeiçoá-lo para contribuições aos estudos e práticas em nível Brasil.

Visando aprofundar o entendimento acerca de possíveis reduções de perdas de alimentos e de insumos e/ou materiais advindas, a partir do processamento 1 o método qualitativo foi o suporte da análise, para os multicasos brasileiros. E a partir de revisão bibliográfica e documental, e em sites das organizações francesas, para a compreensão do tema na França. Para se realizar um paralelo com as práticas (de processamento bovino) na França, realizou-se levantamento detalhado da empresa Marfrig, frigorífico brasileiro que ficou mais bem pontuado no Ranking de avaliação das práticas corporativas de combate às PDAs por meio da avaliação de relatórios de sustentabilidade. Para tal, usando-se dos dados do relatório de sustentabilidade de 2023, da organização.

Relação com a Rede All4Food: Esta pesquisa também contemplou, de modo paralelo, um estudo desenvolvido em parceria com a rede ALl4Food/FZEA USP/Unesp Tupã/Unisinos/Fundação J.L.E.S, de “Ranking de avaliação das práticas corporativas de combate às PDAs por meio da avaliação de relatórios de sustentabilidade” (anos 2023 a fev. 2025). Foi desenvolvida uma revisão sistemática de literatura, e aplicado o método Delphi, com especialistas no tema (área industrial e acadêmica), para criação de: a) indicadores de ações de controle de perdas no setor de processamento alimentício no Brasil; b) análise das ações de 19 organizações, a partir de relatórios de sustentabilidade do ano de 2023; c) rankeamento das 19 organizações estudadas, em termos de informação das ações disponibilizadas quanto ao tema.

Resultados

Com relação ao problema principal de investigação, de aspecto de governança estabelecida entre os segmentos de processamentos e seus fornecedores, sejam de alimentos ou de insumos e/ou materiais possibilitaria a redução de perdas de alimentos e o alcance de sistemas agroalimentares sustentáveis, pode-se afirmar que mais no tocante ao relacionamento com fornecedores de matérias-primas (bovino, trigo e leite), não se observou uma redução de perdas, mas sim, melhoria de eficiência, e sempre voltada à obtenção de sistemas mais sustentáveis. Assim, notou-se que a busca por sistemas mais sustentáveis é eminente nos três casos estudados, ao passo que a redução de custos - estabelecida por esses inter-relacionamentos -, não seria o elemento principal, mas sim, consequente de uma relação de maior confiança, de um mecanismo de governança contratual (empresas A e C) etc., para se reduzir a troca de produtores ofertantes, e que atendam aos quesitos sanitários de produção. Isso fora notável ainda mais nos estudos de casos que envolveram bovino e o aspecto leite, onde o envolvimento das empresas à montante, ofertando assistência técnica e programas aos produtores, é de maior profundidade.

1 Novamente, vale destacar que as análises somente puderam ser realizadas pelo ponto de vista do processamento (relação processamento – fornecedor), dado que as empresas não passaram contatos de fornecedores; quando indagadas, diziam que conversariam com o fornecedor para o retorno, mas mesmo após várias tentativas a posterior das entrevistas, o contato de fornecedores nunca nos foi repassado. 

Outro fator que podemos salientar é o resultado obtido pelo “Ranking de avaliação das práticas corporativas de combate às PDAs, por meio da avaliação de relatórios de sustentabilidade” (ALl4Food/FZEA USP/Unesp Tupã/Unisinos/Fundação J.L.E.S), conforme seria apêndice B. Os indicadores de maior pontuação pelas empresas avaliadas foi o de Cadeia de valor, Relação com fornecedores e de Processos (além de Tratamento interno de resíduos), em ações de maior nível de controle das organizações, e que ampliam a eficiência e aspectos de sustentabilidade. No que se refere a Relação com fornecedores, principalmente em monitoramento de condições de armazenamento e transporte dos insumos fornecidos; em Cadeia de valor, notadamente utilização de rastreabilidade e certificação (tanto no transporte, quanto na cadeia de suprimentos); e em Processos, em economia de água, energia e materiais (uso responsável e procedimentos).

Sobre a hipótese de que “...a coordenação para a implementação de padrões “cosméticos” (Bleakeney, 2019) pode aumentar a ocorrência de PDAs”, ela não foi constatada. Pode-se citar o caso da empresa A, que informou contar com uma linha denominada Bom Preço, para peças com padrão mais inferior e destinada a um mercado de venda mais barato. E subprodutos do processamento que não podem ser voltados ao consumo humano, são enviados a venda ao mercado pet. Essa prática está em consonância ao exposto por Bilska; Kolozyn-Krajewska (2019).

Já a hipótese de que “...quando a coordenação visa a adoção de práticas que reduzem a contaminação dos produtos e o uso inadequado de insumos, os impactos sobre as PDAs devem ser positivos”, foi corroborada aos insumos enquanto embalagens, exemplo, cuja empresa A possui o comprometimento em reduzir o desperdício de embalagens, reutilizar quando permitido, reciclar a quantidade máxima de materiais recuperáveis, e minimizar os resíduos não recicláveis que vão para aterro sanitário.

E a empresa C, de buscar menores embalagens para melhorar eficiência; a empresa vem investindo desde 2018, em novas embalagens de queijos especiais em pequenas porções, em marketing, e em novos canais de distribuição. E ainda, a organização faz redução, reuso ou reciclagem, visando eliminar perdas de alimentos e de materiais, e para tal analisa as embalagens com espaços vazios, busca relacionamento com o fornecedor em novo molde etc. (no final do ano reduz toneladas de plásticos em uso).

A hipótese de que “...alguns mecanismos de coordenação da cadeia de suprimentos podem gerar ou aumentar as PDAs, devido a padrões privados de qualidade do alimento que podem levar à rejeição de alimentos aptos para o consumo, apesar de não atingirem os padrões”, não foi confirmada. Em consonância ao exposto por HLPE  (2014), nota-se que o setor privado também pode assumir seu papel em alterar as práticas de supermercados e varejistas quanto aos padrões usados para aceitar ou rejeitar o que é produzido, em termos de tamanho, cor, formato etc. E nos três estudos de casos analisados, e na empresa Marfrig (a partir de dados secundários de seu relatório de sustentabilidade), notou-se esforços para a redução de perdas, aumentando-se eficiência de processos e o inter-relacionamento com fornecedores, pois possuem protocolos rigorosos de aquisições e relacionamentos com os fornecedores.

A hipótese de que “... as PDAs podem resultar do processo de tomada de decisão sob incerteza (Segrè et al. 2014), pois fazer frente a eventos incertos nos vários elos dos sistemas alimentares, os agentes tenderiam a acumular recursos que em parte acabariam desperdiçados” não foi confirmada, e pode ser exemplificado com o estudo de caso C. A organização envia a outras unidades fabris o produto leite (possivelmente em excesso) e reproduz produtos, de modo a evitar perdas. O que vem ao encontro do exposto por Dora et al. (2021).

Além disso, verificou-se que as negociações e aquisições são permeadas por baixo nível de incerteza (nos casos estudados A e B, processamento de carnes e fabricação de massas, respectivamente), tendo em vista o alto nível de compartilhamento de informação na transação. Isso porque uma possível previsão da demanda e de oferta, e de informações de inovações realizadas pelos fornecedores tendem a instaurar menos incertezas em prazos e em aspectos da qualidade das matérias-primas adquiridas. 

Corrobora-se a hipótese de que “...a persistência de PDAs pode estar associada ao balanço de custos e benefícios de sua eliminação ou redução. As alternativas tecnicamente viáveis para a mitigação das PDAs podem envolver investimentos, aprendizagem e mudanças de rotinas e hábitos, cujo custo excede os benefícios esperados. No caso de o balanço ser positivo (benefícios > custos), as PDAs seriam eliminadas espontaneamente”. Pois em todos os três estudos de casos analisados notou- se rotinas e treinamentos internos que visam reduzir perdas, e cujos benefícios seriam maiores que os custos de implantação. Pode-se citar:  realização de semana anual de conscientização e treinamento sobre meio ambiente (com impacto em uso de embalagens etc.); mudanças internas, seja cultural, profissional e de saúde dos colaboradores, com treinamentos e semanas educacionais, para conscientização; incentivo de melhoria de operações e diminuição de resíduos; rearranjos produtivos, entre diferentes unidades fabris, quando de quebra de maquinários etc.  

Sobre a hipótese “...os agentes compradores têm incentivos para atuar de modo mais cooperativo com os agentes produtores e fornecedores de insumos e/ou materiais, motivados não somente pelo fator econômico, mas pelo valor ambiental e social da firma que é criado a partir da valoração da sociedade”, corrobora-se, e exemplificaremos com o estudo de caso da organização A, e dados secundários Marfrig. O fato de exportarem a mercados de alta exigência sanitária faz com que demandem de seus fornecedores, a produção de bovinos em áreas não degradadas, além de ser exigido documentos fiscais comprobatórios da propriedade etc.

Quanto à hipótese de que “...os aspectos de maior monitoramento às PDAs nos sistemas alimentares sustentáveis (envolvendo produção de produtos agropecuários e os insumos e/ou materiais) requerem estruturas de governança contratuais e de arranjos cooperativos entre compradores e vendedores visando o alcance mais amplo de práticas de economia circular” pode ser corroborada, e será argumentado por meio dos estudos de casos A e C. Isso porque a maior especificidade dos ativos (inclusive física e  locacional), levaria a maiores custos de transação, se a governança utilizada fosse a de mercado, comparativamente aos sistemas de contratos, em consonância a Zylbersztajn (1996). Por outro lado, ambas empresas mantêm mecanismos de governança de contratos, em que as partes mantêm autonomia, mas são bilateralmente dependentes em um grau ‘não trivial’, promovendo uma relação de transação continuada e de eficiente adaptação (à luz de Williamson (1991)). No aspecto de economia circular, mais no que diz respeito à empresa A, pois esta possui o comprometimento em reduzir o desperdício de embalagens, reutilizar quando permitido, reciclar a quantidade máxima de materiais recuperáveis, e minimizar os resíduos.

Analisando-se aspectos da França e do Brasil no tema de PDAs, notamos que ambos os países possuem leis específicas para enfrentamento do problema, mas que enquanto no Brasil a Lei 14.016/2020 somente incentiva a doação de excedentes alimentares por parte de estabelecimentos comerciais e indústrias, para beneficiar pessoas em situação de vulnerabilidade social, na França a primeira Lei data de 2013 (além de Lei Garot, de 2016; e Lei EGALM, de 2018) e todo o aparato consequente é mais abrangente. Abrangente no sentido de: haver 11 medidas para reduzir o desperdício alimentar em 50% até 2025; envolvimento de grupos de trabalho de bens não vendidos e doações de alimentos, prazos de validade; empresas com mais de 400m² passaram a ser proibidas de tornar impróprios para consumo produtos ainda consumíveis; penalidade de quando as empresas não respeitam a lei, incorrendo em multa etc.  

Há de se destacar o fato de (similaridade) ambos os países possuírem: maior percentual de perdas (desperdício em si), no varejo e consumo doméstico (à jusante da cadeia produtiva); e em aspectos de transporte das fazendas até as empresas processadoras, haver condutas bem determinadas pelos órgãos públicos federais em ambos os países, para se evitar falência dos animais ou perda de qualidade. No Brasil, por exemplo, existe um importante Manual de Boas Práticas de Manejo (Transporte), de 2013.

Dentre algumas ações observadas em empresas francesas e em casos brasileiros (empresa A, por estudo de caso; e Marfrig, a partir de dados secundários), salientam-se abordagens semelhantes em rastreabilidades, desde a fazenda até o produto elaborado; e desenvolvimento de embalagens que preservam a qualidade do produto, prolongam o tempo de prateleira e garantem a segurança do alimento, visando estender o tempo de prateleira, por meio de embalagens adequadas e informativas.

Contribuições da pesquisa: em inovação de produtos, ao evidenciar a relevância de embalagens que reduzem perdas do alimento por melhor acondicionamento, o que abre frente a mais organizações investirem na área. Pois evidenciou-se a partir da empresa A; e Marfrig, a partir de dados secundários, a utilização e, muitas vezes, desenvolvimento em conjunto com o fornecedor, de embalagens adequadas e informativas que preservam a qualidade do produto, prolongam o tempo de prateleira e garantem a segurança do alimento.

E em Processos, evidencia-se a demais organizações da indústria de alimentos, o uso de ferramentas e inteligência artificial para minimizar falhas e perdas nos processos. Pôde-se constatar com (estudo de caso empresa A), as inspeções de Rota, que possibilitaram localizar pontos de início de falhas em equipamentos, estruturas prediais, redes de utilidades (água, vapor, ar comprimido), reduzindo o desperdício e promovendo o custo adequado na produção. 

E ainda, da organização Marfrig (a partir de dados secundários), que adota tecnologias da Indústria 4.0 para melhorar seus processos, integrar inovações tecnológicas e análise de big data, para otimizar processos e reduzir perdas. A organização traz uma série de iniciativas associadas ao uso de TICS, como: monitoramento geoespacial para áreas expostas a riscos socioambientais com uso de blockchain; a elaboração de um sistema de Monitoramento, Relatórios e Verificação (MRV0) para acompanhamento de emissões de carbono; medidores de fluxo eletromagnéticos para consumo de água no Brasil; sistema de monitoramento de consumo de energia; e sistema de monitoramento online para lançamento de efluentes.

Quem faz acontecer

💰 Financiamento

CNPq
Processo nº 403618/2021-5

Imagens e materiais de divulgação

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